Das recentes “guerras” entre professores, alunos e governo, niguém ficou a ganhar, e claramente quem perdeu foi a Educação. Uma área primordial para o progresso de qualquer povo. A Educação engloba ensinar e aprender. É um fenómeno visto em qualquer sociedade, responsável pela sua manutenção e perpetuação a partir da passagem, às gerações que se seguem, dos meios culturais necessários à convivência de um membro na sua sociedade. Nos mais variados espaços de convívio social a Educação está presente. Nesse sentido, educação coincide com os principais conceitos de sociedade.
O ensino em Portugal é sabidamente, e desde há muito, mau, para não dizer péssimo. Comparações recentes mostram que os melhores alunos portugueses ficam normalmente nas últimas colocações internacionais. Uma educação que não se permite atingir boas médias nesse tipo de disputa é arcaica, porque inviabiliza a inserção no mundo actual, altamente competitivo e globalizado. Isso obviamente significa a necessidade de se aprimorar num aprefeiçoamento de topo, a formação quer de professores, quer de alunos.
A reflexão necessária sobre a Educação nacional, contudo, precisa levar em conta vários factores, entre eles o de que Portugal está ainda entre os países onde mais se pratica a corrupção, o compadrio, a cunha. Por outras palavras, precisamos de dar ênfase tanto ao ensino competente das matérias tal como à formação de cidadãos capazes de respeitar as leis, sem exemplos frouxos e de cumplicidades bairristas. Porque a Educação não estará a empenhar-se em formar portugueses contrários ao crime, ao facilitismo, à bagunça. Num país em que a lei é tradicionalmente facilitada e desrespeitada, é fundamental ensinar o respeito a ter por ela. Porque só a lei desautoriza os abusos e só ela torna a punição do cidadão legítima, evitando a justiça popular que o homem faz com as próprias mãos.
A escola deve ocupar-se da formação do cidadão. Mas a educação cívica portuguesa não pode ter como modelo outras de países cujos problemas não são os mesmos que os nossos. Não basta transmitir os fundamentos da República – temos de levar em conta a nossa formação histórica, ensinando, por exemplo, as crianças a diferenciar o poder, que não aceita limite, da autoridade, que não se concebe sem o limite. Temos de ensiná-las a discernir entre amizade e cumplicidade. Ou seja, a diferenciar o amigo – que é de paz e tem pelo outro um amor independente do interesse – do cúmplice, que só lhe liga e actua por interesse.
A escola precisa de educar transmitindo valores. Depois da família, são os professores o seu garante de exemplo maior. E isso não tem estado acontecer. Isso não significa, porém, que a actividade docente deva ser politicamente engajada. Ela necessita reger-se, antes de mais nada, pelo princípio da neutralidade política. Fazer das aulas um lugar de doutrinação é um equívoco, como dizia a filósofa alemã Hannah Arendt. Porque a doutrinação é contrária ao desenvolvimento do espírito crítico, que a boa educação também requer.
Se a educação não focalizar o vício nacional da corrupção, o compadrio e da cunha em busca da sua superação e dignidade, deixará de cumprir o seu papel na formação do cidadão. Cabe ao governo proporcionar todos os meios possíveis e necessários para que se exerça uma Educação justa e com dignidade. Mas não só. Cabe também aos sindicatos e aos professores antever todos os danos que podem causar aos alunos com as suas reivindicações – ainda que justíssimas – mas dentro de um contexto anómalo, em que os pais e alunos são as suas principais vítimas.
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