quinta-feira, 2 de Abril de 2009

AK 47 atravessa séculos

Armas, um negócio que não termina nunca

O neocolonialismo que se estabeleceu na Ásia e em África desde o início do século XX, após a Segunda Guerra Mundial começou a desmoronar-se através de revoltas que demandavam pela independência territorial nos domínios sob administração de países europeus como Holanda, Bélgica, França e Portugal.
Mas o que tornava o caso Africano extremamente truncado para os ignorantes políticos da época, era o facto de que as fronteiras estabelecidas por esses países europeus simplesmente não condiziam com as fronteiras seculares estabelecidas entre as comunidades e tribos locais que, por tantas vezes inimigas, tinham de partilhar o mesmo espaço.
Ignorando que esta explicação seja um tanto simplista - afinal isto não é uma aula da história - através dela podemos entender as consequências das lutas pela independência dos países de África, somadas ao ódio imemorial entre grupos que agora exigem cada um ser a hegemonia local. Mas não só - junte ao parágrafo: imensas jazidas de diamantes, psicóticos, o extenso arsenal sem uso de uma ex-República Soviética e traficantes de armas interessados em fazer negócios chorudos com elas. Aí está a receita para que as fábricas da AK-47 tenham clientes para mais de um século.
Libéria, Angola, Sudão e Moçambique foram os países da África que mais receberam carregamentos da Avtomat Kalashnikov 1947. As fontes eram as fábricas na Albânia, Egipto, Hungria, Alemanha, Bulgária, entre outras, que as forneceram aos estados africanos em formação. Ou seja, foram fornecidas a todas as milícias que disputavam, cada uma no seu local, dispostas a serem o governo dos seus estados em formação. Assim, desse modo simplista e perverso, Angola depois de lutar pela independência, esteve em guerra civil durante 30 anos. Líderes rebeldes armaram populações inteiras, inclusive crianças que, como já vimos, podiam manejar esta arma bastante eficaz, simples e mortífera. Logo, o produto tornou-se famoso e tão abundante que chegou a ser vendido a 10 dólares a unidade, ou até trocado por um cacho de bananas...
Com diamantes no Togo e na Guiné, o ditador Charles Taylor fez chover abundantemente a kalashnikova na Libéria. Em 1975, a guerra de dez anos pela libertação de Angola e Moçambique chegava ao fim e, na sequência, um conflito civil onde ambos países seguiram por um calvário de tendências políticas. Quando da assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1994 nos Acordos de Alvor, a bandeira nacional já estava estabelecida: nela figura potente uma AK-47 como símbolo de um povo e da sua luta.
Mas ainda restava a América do Sul a ser conquistada pelo mercado armamentista. Como se sabe, este tipo de arma de assalto adapta-se muito bem às mais diversas condições como humidade e terrenos lamacentos. Que arma poderia ser preferida pelas milícias latinas? A AK-47 chegou à Nicarágua nos anos de 1970, comprada com a mercadoria-chave e abundante local - a cocaína - para colaborar nas lutas da Frente Nacional de Libertação Sandinista (nome inspirado no general Augusto Sandino) que depôs, após 40 anos de ditadura da família Somoza, o presidente Anastásio Somoza. Os rebeldes da esquerda comunista tomaram o poder e construíram em Manágua - capital do país - a estátua de um guerrilheiro erguendo uma kalashnikova. Lê-se impresso na sua base: “No final só restarão trabalhadores e camponeses”. Na verdade restaram também muitas AK-47 que passaram então a ser revendidas nos vizinhos como Honduras e El Salvador, daí para os narcotraficantes e facções rebeldes do Peru, Colômbia e Brasil foi um pequeno passo, onde é hoje vendida a preços baixos e figura como uma arma básica nas mãos de membros do Comando Vermelho - no Rio de Janeiro - ou do Primeiro Comando da Capital - em São Paulo, e são cantadas alegremente nas festas de funk ou rap locais.
Chegam ainda hoje à América Latina de forma legal. Em 2005, Hugo Chávez adquiriu na Rússia 100 mil Ak’s e já anunciou a intenção de construir no país uma fábrica de AK-103 nos arredores de Caracas. Ou seja, a AK-47 entra no século XXI gozando de uma saúde invejável, a despeito de todo o sangue derramado - estima-se que tenha matado, pelo menos, 7 milhões de pessoas com as suas quase 100 milhões de unidades fabricadas.
O seu criador também não está mal: Mikail Kalishnikov tem hoje 87 anos. Uma marca de vodka que tem o seu nome publicou há dois anos as suas memórias no livro “Rajadas da História”. Vive uma vida tranquila numa casa entre os bosques dos montes Urais, na Rússia.
Quem ficará para contar o resto da história?
A. Nogueira

(Exclusivo para Algarve Reporter)

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