"Sem o seu derrube, onde estariam as cores, onde o movimento de massas, por onde andaria a emoção de que carecem os grandes eventos da história - como o assassinato de César, a queda da Bastilha, ou o 25 de Abril?"Que bom que o Muro de Berlim foi construído. Se não tivesse sido construído, não teria sido destruído. E, se não tivesse sido destruído, como assinalar no curso da história, da maneira vistosa e dramática que merece, esse evento capital que foi o desmoronamento do mundo comunista? Com que cenário? Com que povo? Com que artefacto, concreto como um muro, enorme, contra o qual investir? Ainda bem que existem os eventos simbólicos a marcar a marcha da história. Sem eles, estaríamos condenados aos "processos", essas fluídas cadeias de circunstâncias políticas, relações sociais, estados psicológicos, oscilações económicas, percepções e acidentes que, temperadas por inevitáveis doses do acaso, conduzem a corrente da história, de forma frequentemente misteriosa, para este ou aquele caminho. Actos como o derrube do muro que dividia a antiga capital do Reich dão visibilidade à história. Servem de farol contra a falta de rosto, de cor e de volume dos "processos".
O derrube do Muro de Berlim é um acontecimentoo da mesma natureza da queda da Bastilha, em França. Claro que não foi a investida contra a mal-afamada fortaleza da Rua Saint-Antoine, em Paris, ainda mais que naquela data já andava meio desactivada, como prisão, e não continha senão sete escassos prisioneiros. Não foi isso que determinou a Revolução Francesa. Mas, sem o episódio da Bastilha, como dar corpo e - de fundamental importância - como dar uma data ao conjunto de transformações ocorrido naquele período da vida francesa? A própria história portuguesa contém um exemplo similar - a "queda do Quartel do Carmo", onde se refugiou o governo marcelista na abrilada. O evento salvou o advento da dita "revolução dos cravos" do destino de, submerso num mar de vários "processos" de origem, apresentar-se sem corpo e sem data. Os actos simbólicos têm o efeito de agarrar o tempo e forçá-lo a uma paragem, majestosa e densa como uma escultura. Eles dão inteligibilidade à história da mesma forma como a sucessão das estações dá inteligibilidade ao ano.
A queda do Muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989, permitiu que, houvesse este mês uma festa na capital alemã e comemorações pelo mundo fora, pelos vinte anos da data. Sem ela, como comemorar a derrocada do império soviético e as tiranias do Leste Europeu? Uns indicariam as greves conduzidas na Polónia pelo movimento Solidariedade de Lech Walesa. Outros inclinar-se-iam para as manifestações que compuseram a "Revolução de Veludo" da Checoslováquia. Mas qual das greves e qual das manifestações, se foram tantas e várias? Mais seguro seria apontar para o dia da ascensão de Mikhail Gorbachev à secretaria-geral do Partido Comunista - 11 de março de 1985. Mas, se foi possível a Gorbachev ascender ao mais alto cargo da hierarquia soviética, e com ele o impulso reformista que fermentava no interior do regime, é porque algum tipo de fissura já minava a carapaça do oco poder comunista.
E minava mesmo. A União Soviética já não tinha fôlego para sustentar a corrida armamentista imposta pela concorrência com os Estados Unidos. Além disso, vivia num atoleiro sem saída para o seu envolvimento militar contra os talibans do Afeganistão. Além disso, já ficara irremediavelmente para trás do Ocidente nas conquistas tecnológicas. O seu sistema económico mostrava-se pateticamente incompetente no provimento dos bens de consumo de que carecia a população. Pronto. Estamos no emaranhado de fios que tecem os "processos", e tantos fios acharemos quanto mais nos detivermos a procurá-los. O historiador inglês Timothy Garton Ash lembrou-se da "lei da cornucópia infinita", formulada por outro historiador, o polaco Leszek Kolakowski. Para qualquer evento, segundo a lei de Kolakowski, é possível encontrar um número infinito de explicações.
Onde, se nos detivermos nos processos, a cenografia, onde as cores, onde o movimento, onde a emoção de que carecem os grandes eventos da história - qual o assassinato de César, o martírio de Joana d’Arc, a batalha de Waterloo? Precisamos de teatro, esta é que é a verdade, como de ar para respirar. Dai-nos uma cena forte, esmagadora, e com ela marcaremos o tempo, de forma a tirá-lo da uniformidade sem graça e sem sentido do seu fluxo contínuo. No campo das miudezas quotidianas, o momento do "parabéns a você" é o teatro que assinala a passagem de mais um ano de vida. No campo das grandiosidades históricas, o muro forneceu o cenário, e as pessoas que trepavam para cima dele, dançavam e arrancavam pedaços de cimento, num misto de levante e festa popular, e assim compuseram a dramaturgia de que carecia um evento daqueles: o portentoso momento da queda da fortaleza comunista.
Carlos Ferreira
algarve.reporter@live.com.pt
9 comentários:
Um belíssimo texto que deixa transparecer com toda a frontalidade a realidade dos nossos dias, aquilo que o ser humano precisa para ser sensibilizado: festa!
Na política é igual.
O resto é conversa.
JMG
A queda do muro de berlim, nada mais representa que o assalto ao Palacio de Inverno dos Kesares da russia, só agora ao contrario com a reposição da pouca vergonha,do capitalismo corrupto, ladão de bancos e sorvedor da economia mundial que durante setenta anos esteve contida e repremida pelo que representava o muro de berlim na sua totalidade do sistema socialista que não deixava esta escumalha capitalista pôr o pé em ramo verde. Defender a queda do MURO DE BERLIM é uma atitude hipocrita analfabeta e demagógiga quando o capitalismo só na América tem mais de 60 mi~hões de indegentes abaixo dos infra niveis de pobreza, onde o cão de OBAMA tem mais direitos que estes pobres. Comparar o DERRUBE DO MURO DE BERLIM ao 25 de Abril ´´e o mesmo que compará o olho do cú com a feira de CASTRO.Tenham vergonha!!!!
Diogo Freitas Marreiros Cristovão
Que encanto este desencanto que me precede! Tem toda a razão... nas comparações que faz. O que fica (des)dito será o quê? Compara-se ele próprio aos infernos que nos precederam e que têmos mesmos nomes que ele tanto gosta! Sirva-lhe de proveito. Quer ver o que dá o seu paleio pré-histórico? Um reaccionário de "analfabetos" que nem "indegência" alfabetiza como deve ser!
Um hipócrita que usa o conceito a torto e a direito como se a nossa conveniência discursiva, ideológica e tagarelas desse sentido à palavra e à linguagem que usa. Demagogo...Olha, vá estudar e depois fale de história, de política, mas não se esqueça, por amor a si próprio, de ver o que significa LIBERDADE com RESPONSABILIDADE e com AUTODETERMINAÇÃO. Vá ao dicionário ver a palavra MURO. E já agora, o que faz V.Exª aos seus animaizinhos de estimação? Não tem? Não estima nada nem ninguém? Tenha você vergonha e mostre-se digno daqueles que ainda publicam as suas baboseiras. Sempre houve "Velhos do Restelo" neste país. Ao menos trate quem vem a este blogue com algum sentido de alegria e de bom gosto, com os direitos que V Exª merece, mas nós acima de tudo. Não nos faça a nós o mesmo que aplica ao cão de Obama. Somos gente, mesmo que não gozemos dos seus ideais. Não. Não ficamos dentro dos seus muros. Já de lá saímos e a experiência que temos feito fale por si. Quando escrever não se esqueça de ir colocando ao lado as palavras que não usa. Pode ser que assim se dê conta do valor que não tem. Imagino-o como uma triste figura. Não sei porquê? Mas com este palavreado e linguagem....
estes lacaios moralistas e defensores dos roubos do capitalismo socateiro socrista de elevadissima corrupção vêem chamar anónimo e outros mimos a quem lhes descobre a careca e eles gatafunham igualmente como anonimos, mas que grande lata!!!! destes socateiros trvestidos de virgens puras. TENHAM VERGONHA NA P. DA CARA SEUS VENDIDOS!!!!!!!
GMJ
EH pá! Que grande problema temos aqui! Chiça, maria nabiça... temos novamente guerra em áfrica, querem lá ver!
Este(s) comentadore(s) ordinareco que assina com nomes de filmes de 3ª, deve ser da ala trotkista do BE - Bestas Esquisitas!!
Além de não ter percebido nada da ironia intrínseca do texto (muito bom, por sinal), ainda por cima vêm aqui vomitar palavreado oco e desfasado.
A democraticidade deste blog permite-lhe isso, felizmente.
Que venha mais vezes para ler as muitas verdades aqui escritas, e que tanto lhe amargam a alma envenenada!
Alcides
envenenada? é favor!!!
torturada e frustrada!!!
Abençoado Algarve Reporter - Amen
Crónica muito boa e super realista, esta do C. Ferreira, que só um cego não pode ler.
Mas poderá entender.
Lá diz o ditado, "não há cego pior do que aquele que não quer ver".
Sem mais comentários.
Textos destes, é dar pérolas a (alguns) porcos!
OS lAMBE BOTAS continuam a adorar os bezerros de oiro do capitalismo não são mais que pederastas.São um vomito e têeem os socateiros que merecem porque chafurdam na socata mais abjecta dos godinhos, varas, socrates e porcaria limitada
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